sexta-feira, 1 de junho de 2012

Reflexões sobre a matéria lecionada


Fernando Pessoa – Ortónimo e Heterónimos

     O principal traço da poesia do ortónimo é o binómio sentir/pensar que conduz à dialética consciência/inconsciência. Ansioso por permanecer no mundo dos sentidos Pessoa debate-se com a força do intelecto que não lhe permite alcançar a felicidade alegre da inconsciência. Assim, sente a dor de pensar e deseja ser a ceifeira anónima, inconsciente e feliz, inveja a sorte do gato que rege a vida pelos seus instintos, e tenta recuperar os tempos de infância, o paraíso perdido e longínquo em que onde foi feliz. Contudo trata-se apenas de fugas de si mesmo e o que permanece é a desagregação do tempo, o desencanto e angústia da efemeridade da vida.
O fenómenos da heteronímia consiste na despersonalização do “Eu” e na fuga á individualização do Ortónimo que, sentindo-se fragmentado entre o sentir e o pensar, se desdobra na criação de seres fictícios. Trata-se pois na conceção imaginária de figuras exatamente humanas que eram gente, que se movimentavam num palco onde desfilam, pelo menos, quatro personagens diferentes: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Pessoa Ortónimo.



Lusíadas


Os Lusíadas (século XVI) constituem uma das obras que melhor exprimem a glória do povo descobridor que, graças ao seu espírito aventureiro deu novos mundos ao mundo e unificou a Terra, complementando os seus objetivos religiosos de acordo com o ideal de cruzada. Expandir a Fé e o Império é o grande objetivo que sempre norteou o Homem português, que Camões glorifica na sua epopeia em dez cantos de oitavas, com versos decassilábicos, num estilo grandioso e eloquente, onde a mitologia constitui um dos planos ao lado da História de Portugal, da viagem á Índia e das intervenções do Poeta. Camões canta a glória portuguesa do Império já conquistado, mas dirige-se a D. Sebastião a quem dedica a sua obra num tom de lamento, e nas suas reflexões lança uma crítica aos poderosos, à política e ao desprezo pela cultura.



O Adamastor


Mensagem

Fernando Pessoa em Mensagem, contempla a sua pátria decadente e moribunda do presente e mitifica o passado glorioso português tendo como símbolos Ulisses e D. Sebastião, e evocando várias figuras heroicas na terra e no mar, para que as suas vozes e os seus feitos se elevem e venham despertar do sono e da inércia os portugueses do século XX, reacendam chama da fé e da esperança e partam à conquista do Futuro. Numa obra constituída por 44poemas de estrofes, métrica e rima variadas, numa linguagem densa, cuidada e por vezes abstrata e num discurso épico, lírico e simbólico. Pessoa recompõe a história de Portugal dividindo o texto em três partes (“Brasão”, “Mar Português” e “O Encoberto”).

Felizmente Há Luar!

Felizmente Há Luar!, texto emblemático do teatro português dos anos 60, desenvolve um conjunto de temas (opressão, luta pela liberdade, amor) que constituiu um todo indissociável.
É um drama narrativo, de carácter social, dentro dos princípios do teatro épico ou brechtiano. O teatro épico tem como objetivo levar o espetador a pensar e refletir sobre o que se passa em cena. Por isso, Sttau Monteiro em Felizmente Há Luar! visa denunciar, não só as crueldades cometidas durante o regime absolutista, mas também despertar os leitores/espectadores para as crueldades e injustiças que se cometiam em Portugal durante o período do fascismo. O século XIX funciona assim como uma janela aberta para o século XX, num tempo em que a censura proibia tudo o que fosse contra o poder instituído.
Concluindo, poder-se – á afirmar que Felizmente Há Luar! se constitui como uma espécie de hino a todos os residentes e a todos aqueles que lutaram pelo fim da opressão e pela restituição da liberdade do povo português.






Memorial do Convento


Memorial do Convento é um romance que, partindo de um facto histórico – a construção do Convento de Mafra, não se limita apenas ao relato objetivo dos factos mas ficciona-os através da atuação de personagens que fogem à logica da História.
            Na verdade, e embora o narrador relate, de forma cuidadosa, pormenores históricos, reais, que envolveram a construção do convento, a história de Baltasar e Blimunda e o projeto de construção da passarola do padre Bartolomeu de Gusmão vão para além da História, entrando no domínio da ficção e mesmo na esfera do maravilhoso.
            Esta coexistência, entre a Historia e a ficção é uma forma de o narrador/autor mostrar que os verdadeiros heróis da história não são, na maioria das vezes, as personagens oficiais, mas sim o povo anónimo e sofrido.
            Assim, posso afirmar que, em Memorial do Convento, História e ficção acabam por ser o positivo e o negativo de uma mesma realidade. 


Convento de Mafra
D. João V


Passarola




José Saramago

José de Sousa Saramago
Nasceu a 16 de Novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, na Golegã, província do Ribatejo, filho de José de Sousa e de Maria da Piedade.

Em 1924, parte, com os pais, para Lisboa e foi lá que fez a escola primária, mudando depois para a escola secundária, onde ficou apenas dois anos, por falta de recursos económicos. Foi para uma escola profissional e, durante cinco anos, aprendeu a ser serralheiro-mecânico, sendo este, aliás, o seu primeiro emprego, depois de terminado o curso. Nessa altura já começara a frequentar, em horário pós-laboral, uma biblioteca pública, em Lisboa. E foi aí, sem qualquer ajuda ou indicação, apenas com curiosidade e vontade de aprender, que o seu gosto pela leitura se desenvolveu e refinou.

Exerceu, depois deste primeiro emprego, diversas profissões: desenhador, funcionário administrativo da saúde e da previdência social, editor, tradutor e jornalista.

Publicou o seu 1.º livro, o romance Terra do Pecado, em 1947, tendo estado depois muito tempo (cerca de 19 anos) sem publicar.

Trabalhou durante 12 anos numa editora, onde exerceu funções de direção literária e de produção. Colaborou, como crítico literário, na revista Seara Nova.

Em 1972 e 1973 fez parte da redação do jornal Diário de Lisboa, onde foi comentador político.
Em Abril e Novembro de 1975 foi diretor-adjunto do jornal Diário de Notícias.

Em 1993 transferiu a sua residência para a ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias, em Espanha.

Mais recentemente, em 1998, com 75 anos, foi o 1.º escritor português a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura.

Foi doutor “honoris causa” pelas Universidades de Turim (Itália), Manchester (Inglaterra), Sevilha, Toledo e Castilla-la-Mancha (Espanha), Brasília, Évora e Coimbra. Foi ainda membro “honoris causa” do Conselho do Instituto de Filosofia do Direito e de Estudos Histórico-Políticos da Universidade de Pisa; foi membro da Academia Universal das Culturas, de Paris; membro correspondente da Academia Argentina de Letras e membro do Parlamento Internacional de Escritores em Estrasburgo.

Foi também um dos mais premiados autores da nossa literatura. Entre muitos outros galardões, recebeu:

- Prémio Internacional Literário Mondello (Palermo) em 1992, pelo conjunto da obra;

- Prémio Literário Brancatti (Sicília), em 1992, pelo conjunto da obra;

- Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (APE), em 1993;

- Prémio Consagração SPA (Sociedade Portuguesa de Autores), em 1995;

- Prémio Camões, em 1995;

- Prémio Nobel da Literatura, em 1998.

O célebre autor de Memorial do Convento morreu a 18 de Junho de 2010.

Memorial do Convento

Categorias do texto narrativo

Ação
            O rei D. João V, Baltasar e Blimunda e Bartolomeu Lourenço protagonizam as diversas ações que se entretecem em Memorial do Convento.
            A ação principal é a construção do convento de Mafra. Esta ação resulta da reinvenção da História pela ficção. Situando-se no início do seculo XVIII, encontra-se um entrelaçamento de dados históricos, como o da promessa de D. João V de construir o convento de Mafra, e o do sofrimento do povo que nele trabalhou. Conhece-se a situação económica e social do país, os autos-de-fé praticados pela Inquisição, o sonho e a construção da passarola voadora pelo padre Bartolomeu de Gusmão, as críticas ao comportamento do clero, os casamentos da infanta Maria Barbar e do príncipe D. José.
            Paralelamente à ação principal, encontra-se uma ação que envolve Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete Luas. São estas personagens que estabelecem, muitas vezes, o fio condutor da intriga e que lhe conferem fragmento de espiritualidade, de ternura, misticismo e de magia.
            A centralidade conferida às obras do convento e os espaços sociais de Lisboa ou Mafra dão frequentemente lugar a uma intriga de profunda humanidade trágica. As duas ações voluntariamente surgem em fragmentos que se reconstituem por encaixes vários e recriam situações, costumes, tradições, ambientes e problemas.


Convento de Mafra
Espaço:

Espaço Físico:

É o espaço real, onde os acontecimentos ocorrem, confere verosimilhança à história narrada. O cenário da obra tem dois macro-espaços:

Lisboa, cujos micro-espaços são:
Terreiro do Paço - local onde se situava o palácio do rei, é o centro do poder;
Rossio - é o centro urbano onde tem lugar as festividades como os autos-de-fé, as procissões e as touradas;
Abegoaria - na Quinta do Duque de Aveiro, em S.Sebastião da Pedreira, é o local onde a passarola é construída.

Mafra, cujos micro-espaços são:
Vila de Mafra - é uma pequena população que sobrevive pela agricultura e que vive isolada da civilização até o rei escolher Mafra como local da construção do convento;
Alto da Vela - é o local da construção do convento;
Ilha da Madeira - é um aglomerado de barracões de madeira onde se localiza os alojamentos dos operários que trabalham na construção

- Espaço Social: 

É relatado através de determinados momentos e do percurso de personagens que tipificam um determinado grupo social, caracterizando-o. O ponto de vista sociológico em que o narrador se coloca permite-lhe apresentar um quadro claro da vida social do século XVIII.
- A vida na corte, com a apresentação do séquito real, do vestuário das personagens, das vénias protocolares, do ritual das relações entre o rei e a rainha e todos aqueles que frequentam o paço, sobretudo o clero (Cap. I);
- Diversas procissões, nomeadamente, a de penitência pela altura da Quaresma (Cap. III), a dos autos-de-fé (Cap. V e XXV); a do Corpo de Deus em Junho (Cap. XIII); que atestam a influência da religião na sociedade;
- O batizado da princesa Maria Bárbara no dia da Nossa Senhora do Ó (VII);
- A tourada em Lisboa, no Terreiro do Paço (IX);
- Os festejos da inauguração e da bênção da primeira pedra do convento de Mafra (XII);
- As lições de música da infanta Maria Bárbara ministradas por Domenico Scarlatti (XVI);
- A epidemia de cólera e febre-amarela que dizima o povo (XV);
- O cortejo nupcial que retrata os casamentos da infanta Maria Bárbara e do príncipe D. José com o príncipe e infanta espanhóis (XXII);
 - Sagração, em 1730, do convento de Mafra, apesar de ainda não concluídas as obras (XXIV) …

 - Espaço Psicológico:
         Este espaço é entendido através do monólogo interior em que as personagens revelam o seu íntimo ou representado através do sonho/imaginação da evocação, da memória e da emoção, podendo, também, ser sugerido através da descrição de atmosferas ilustrativas do pensamento predominante de uma época.
         Ora, em Memorial do Convento, a vida da sociedade do século XVIII pauta-se por uma religiosidade fanática e opressiva que dita as regras do comportamento social. É exemplo deste espaço psicológico quando Baltasar relembra o momento em que perdeu a sua mão esquerda na guerra.

Tempo
 O tempo narrativo resulta da articulação do tempo da história e do tempo do discurso.
Relativamente ao  tempo da história, sucessão cronológica de acontecimentos, contatamos que a ação decorre durante o reinado de D. João V, tendo início no ano de 1711. O monarca encontrava-se casado com D. Maria Ana Josefa, que chegara da Áustria “há mais de dois anos”. Por outro lado, D. João V, nascido em 1689, teria nessa altura vinte e dois anos.
Ao longo do romance, encontramos inúmeras referências temporais que os dão conta da passagem do tempo: “há seis anos que vivem como marido e mulher…”; “Desde que na vila de Mafra, já lá vão oito anos, foi lançada a primeira pedra da basílica, essa de Pero Pinheiro…”.
O narrador faz a disposição do tempo da história através de uma organização própria, o tempo de discurso, onde têm lugar as analepses (“Não tem ninguém em Lisboa, e em Mafra, donde partiu anos atrás para assentar praça na infantaria de sua majestade”) e inúmeras prolepses, que denotam claramente a focalização omnisciente do narrador: “é o caso da rainha, devota parideira, que veio ao mundo só para isso, ao todo dará seis filhos…”. 

Estrutura

A estrutura de um romance assenta na coexistência de vários conflitos que se enredam e através do texto manifestam ou desocultam a realidade e os problemas do ser humano. 
Em Memorial do Convento observa-se uma reinvenção da História, de atos e de comportamentos para despertar os leitores para situações reais perturbantes que devem ser analisadas. Pela ficção e com a sua palavra reveladora e denunciadora, José Saramago propõe o repensar da História portuguesa à luz das mentalidades atuais e possibilita a consciencialização sobre a verdade do homem. Assim, consegue a missão do escritor que, numa realização estética, fornece uma mensagem ética.
A estrutura de Memorial do Convento apresenta duas linhas condutoras da ação - a construção do convento de Mafra e relações entre Baltasar e Blimunda - que se entrelaçam como acontecimentos diversos recolhidos na História ou fantasiados.
Memorial do Convento está dividido em 25 partes, ou capítulos, não nomeadas nem numeradas, mas perfeitamente reconhecidas pelos espaços em branco que as separam. 

Dimensão simbólica/histórica

Memorial do Convento é uma obra onde podemos encontrar uma enormidade de elementos simbólicos. Para além de objetos, as personagens, os números, os espaços, parece que tudo tem um valor simbólico importantíssimo. Aqui ficam presentes os símbolos e respetivo valor a não esquecer:
Convento de Mafra - representa a ostentação régia e o místico religioso. Mas também testemunha a dureza a que o povo está sujeito, a miséria em que vive, a exploração a que é sujeito apesar da riqueza do país. 
Passarola voadora - simboliza a harmonia entre o sonho e a sua realização, o desejo de liberdade. Permitiu a união entre Bartolomeu Lourenço, Baltasar e Blimunda, que juntaram a ciência, o trabalho artesanal, a magia e a música para construir e fazer voar a passarola. Símbolo de fraternidade e igualdade capaz de unir os homens cultos e os populares. 
Blimunda - representa um elemento mágico difícil de explicar: possui poderes sobrenaturais que lhe permite compreender a vida, a morte, o pecado e o amor. Através de Blimunda o narrador tenta entrar dentro da história da época e denunciar a moral duvidosa, os excessos da corte, o materialismo e hipocrisia do clero, as perseguições i injustiças da inquisição, a miséria e diferenças sociais. 
Número “sete” - é o número de dias de cada ciclo lunar, que regula os ciclos de vida e da morte na Terra. Símbolo de sabedoria e de descanso no fim da criação. 
Baltasar Sete-Sóis / Blimunda Sete-Luas - o sol símbolo de vida, associa-se ao povo que trabalha incessantemente, como o próprio Baltasar, apesar de decepado. a lua não tem luz própria, depende do sol, tal como Blimunda depende de Baltasar. A lua atravessa fases, o que representa a periodicidade e a renovação. 
Cobertor - símbolo de afastamento, da separação que marca o casamento de convivência entre o rei e a rainha. Liga-se à frieza do amor, à ausência do prazer, esconde desejos insatisfeitos. 
Colher - símbolo de aliança, da “união de facto”, de compromisso sagrado. Exprime o amor autêntico numa relação de paixão, a atração erótica de um casal que desenvolve uma calorosa paixão.

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Linguagem e Estilo

            Importa refletir sobre a especificidade do estilo saramaguiano, que já fez escola, e nos dá a perceber algumas ruturas com a norma linguística, sobretudo ao nível da pontuação, da separação de falas e de discursos e da utilização da maiúscula no meio da frase.
            Estes aspetos ultrapassam o seu pendor exclusivamente gráfico e repercutem- se na própria teia, tecida pelo narrador, onde não se destrinçam sem algumas dificuldades as origens e a pertença de vozes da narrativa manobradas e interrompidas, qui e acolá, com este ou aquele comentário ou aparte, a seu bel-prazer.

·         O narrador conta a história reproduzindo as falas das personagens, num discurso próximo da oralidade, como se estivesse junto a nós;
·         Não se verifica a mudança de linha no discurso direto;
·         não há recurso a sinais gráficos (dois pontos, travessão, aspas e itálicos);
·         A construção da pausa efetua-se através do uso da vírgula e da letra maiúscula;
·         As frases e a ausência de pontuação favorecem a pluralidade de vozes;
·         Uma só frase é já um diálogo, ou fragmento de dialogo, onde cabem o acordo e o desacordo;
·      Dá à linguagem um de cronica histórica, quer no género quer no sentido de quem conversa, com recurso à voz do autor, à ironia, à referencia filosófica;
·         A sua linguagem flutua entre a riqueza dos termos, jogos conceituais e duplicidades sintáticas, que se combinam com discursos simples de oralidade, cheios de expressões triviais, frases idiomáticas/provérbios, ditados, humor e ironia.


Visão Crítica


Tendo como pretexto a construção do convento de Mafra, Saramago, adotando a perspetiva de um narrador distanciado do tempo da diegese, apresenta uma visão crítica da sociedade portuguesa da primeira metade do século XVIII. É neste sentido que Memorial do Convento transpõe a classificação de romance histórico, uma vez que não se trata de uma mera reconstituição de um acontecimento histórico, mas é antes um testemunho intemporal e universal do sofrimento de um povo sujeito à tirania de uma sociedade em que só a vontade de El-Rei prevalece.
            Logo desde o início do romance é visível o tom irónico e, até mesmo, sarcástico do narrador relativamente à hipotética esterilidade da rainha e às infidelidades do rei. Esta atitude irónica do narrador mantém-se ao longo da obra, denunciando o comportamento leviano do rei, a sua vaidade desmedida e as promessas megalómanas de que resulta o sofrimento extremo dos homens. O clero, que exerce o seu poder sobre o povo ignorante através da instauração de um regime repressivo e que constantemente quebra o voto de castidade, também não escapa ao olhar crítico do narrador. A atuação da Inquisição é de igual modo criticada ao longo do romance, nomeadamente, através da apresentação de diversos autos-de-fé e uma crítica às pessoas que dançam em volta das fogueiras onde se queimaram os condenados.
            Assim, são sobretudo as personagens de estatuto social privilegiado o alvo da crítica do narrador que denuncia as injustiças sociais, a omnipotência dos poderosos e a exploração do povo – evidenciada nas miseráveis condições de trabalho dos operários do convento de Mafra; ao mesmo tempo que denota empatia face aos mais desfavorecidos, cujo esforço elogia e enaltece.

Construção da Passarola                


            O sonho do Padre Bartolomeu de Gusmão concretiza-se na construção da passarola. Esta narrativa encaixada alterna irregularmente com a primeira, apresentando-se em sequências diferentes.
            Na construção da passarola, na quinta de S. Sebastião da Pedreira, intervêm, além de Frei Bartolomeu, Baltasar e Blimunda, mulher cujo poder especial de vidência permitirá encher as esferas com as vontades que recolherá entre os humanos e inspecionar os matérias. O primeiro voo da passarola é agitado, poi o Padre Bartolomeu, Perseguido pela Inquisição, apressa essa viagem extraordinária.

Passarola


Personagens




Relações Amorosas






 




terça-feira, 29 de maio de 2012

Modo dramático

A palavra teatro significa literalmente o lugar de onde se olha. O teatro é um espetáculo: como tal, requer a presença física de atores, representando para um público, dando vida a um texto através de palavras proferidas em cena. O texto de teatro é concebido para ser representado: ler uma obra de teatro impõe ter em conta como será representada. A peça de teatro não se reduz à linguagem verbal; comunica informações e produz efeitos através de todas as componentes do espetáculo. Ao texto dramático (que fixa o discurso das personagens) junta-se, no momento da representação, elementos visuais ( gestos, objetos, cenários, luzes...) e sonoros ( intonações, sons, música). O autor dramático escreve um texto com vista à representação, deixando sempre uma margem de liberdade ao encenador e aos atores que se apropriam do texto para o fazer reviver em cena. 


    Por isso, ler um texto de teatro não é o mesmo que vê-lo representado, sendo essencial para a sua leitura descodificar as informações contidas nas didascálias, que fazem parte integrante do texto dramático, e interpretar os sentidos múltiplos ou ambíguos atribuídos ás diferentes personagens, bem como as relações que estas mantêm entre si.



Características do Teatro Épico

Teatro Épico – Representação de um acontecimento ocorrido no passado histórico. Sttau Monteiro (Felizmente Há Luar!), Bernardo Santareno (O Judeu) e Cardoso Pires (O Render dos Heróis), foram influenciados pelo dramaturgo alemão Bertoli Brencht, “pai” deste tipo de teatro que se opõe ao drama aristotélico.

Teatro Épico (drama não aristotélico)
- Deseja provocar uma atitude socialmente empenhada, visando a transformação da sociedade.
- Rejeita a cartase.
- O espetador deve ser desligado da ação, criando-se o efeito de distanciação.
- Valoriza a narrativa – o espetador ouve a narração dos acontecimentos.
- O espetador deve refletir, ser crítico.
- O espetador é ativo, estimulando a sua capacidade de observação e de raciocínio.
- O espetador recordará para sempre a mensagem da obra. 
- O ator demonstra ação.

Encenação do Teatro Épico
- O encenador deve utilizar uma vasta variedade de efeitos para que os espetadores desenvolvam as suas capacidades de reflexão.

- A história estrutura-se por uma sucessão de situações; o décor, sonoridades e coreografia são independentes, tal vista a impedir a criação da ilusão da realidade; os gestos, os aspetos fisionómicos, os comportamentos, a entoação constituem o que Brecht denominava, no seu conjunto, por “gestus”, isto é, as atitudes marcantes do ser humano.

- No palco, todas as formas de criar ilusão devem ser banidas, como, por exemplo, o uso de cortinas. Assim, as cenas são exuberantemente iluminadas.


Bertoli Brecht

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Felizmente Há Luar!


Entrelaçamento de dois tempos



Sttau Monteiro
Sttau Monteiro, na sua obra, Felizmente Há Luar!, entrelaçou dois tempos, servindo-se um deles (sec. XIX) como máscara para encobrir a verdadeira época que pretendia retratar (sec. XX).

Recorrendo ao processo de distanciação histórica no tempo, o dramaturgo fez reviver o drama de Gomes  Freire – a sua denúncia, prisão, enforcamento e fogueira – num ambiente onde as forças do poder manipulavam. Tudo e todos, tinham ao seu serviço uma polícia desumana, injusta e oprimiam o povo, mantendo-o analfabeto e na miséria. Contudo, a sua verdadeira intenção para denunciar o Estado Novo e a polícia salazarista que erguia o estandarte do medo através da PIDE e dos seus agentes, que era manipulada pelos monopólios estrangeiros, e mantinham o povo numa situação de perfeita miséria e analfabetismo.

Sendo F.H.L! um teatro épico , este tem o objetivo de despertar no espetador a análise e a reflexão, mantendo a distância emotiva e conduzido à ação. Assim, pode dizer-se que o passado (sec. XIX) é, metaforicamente, uma janela aberta por onde os espetadores podem espreitar e ver o presente político da sua época, onde eles próprios estão aprisionados e sem liberdade, mas de onde têm de ser capazes de se libertar e conquistar os seus direitos.



TEMPO DA HISTÓRIA – sec. XIX - 1817
TEMPO DA ESCRITA – sec. XX - 1961
Agitação social que levou à revolta liberal de 1820 – conspirações internas; revolta contra a presença da corte no Brasil e a influência do exército britânico;
Agitação social dos anos 60 – conspirações internas; principal irrupção da guerra colonial;
Regime absolutista e tirânico;
Regime ditatorial de Salazar;
Classes sociais fortemente hierarquizadas; classes dominantes com medo de perder privilégios;
Maior desigualdade entre abastados e pobres; classes exploradoras, com reforço do seu poder;
Povo oprimido e resignado;
Obscurantismo, mas “felizmente há luar”;
Povo reprimido e explorado; Obscurantismo, mas crenças nas mudanças;
Manuel, “o mais consciente dos populares” denuncia a opressão;
Luta contra o regime totalitário e ditatorial; Agitação social e política com militantes antifascistas a protestarem;
Perseguições dos agentes de Beresford; as denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmento que hipócritas e sem escrúpulos, denunciam;
Perseguições da PIDE; Censura
Severa repressão dos conspiradores; processos sumários e pena de morte;
Prisão e duras medidas de repressão e de tortura; condenação em processos sem provas;
Execução do general Gomes Freire, em 1817.
Posterior a Felizmente Há Luar! – Execução do general Humberto Delgado, em 1965



Simbologia presente na obra
Em Felizmente Há Luar! há elementos com elevada carga simbólica, cuja descodificação ajuda a compreender a mensagem da obra.

Salienta-se, em primeiro lugar, o título, expressão preferida por duas personagens de “mundos” diferentes: D. Miguel, símbolo do Poder, considera que o luar permitirá que o clarão da fogueira seja visto por todos, atemorizando aqueles que ousem lutar pela liberdade, numa clara função repressora; para Matilde de Melo o luar tem uma função dissuasora, sublinhando a intensidade do fogo, incitando à ousadia daqueles que acreditam na mudança e na caminhada para a “luz da liberdade”.

A noite simboliza o poder das trevas, a escuridão, o obscurantismo e a ausência de liberdade, intimamente relacionado com o poder do absolutismo; o luar simboliza a renovação, a luz e a claridade que tem a função de quebrar a escuridão da noite. A saia verde representa a liberdade, o amor e a esperança de Matilde no renascer das ideias do General. É o sinal de que o seu luto se converteu em esperança. O luto de Sousa Falcão é o resultado da análise que a personagem faz a si próprio num gesto de auto-reflexão, onde se caracteriza como traidor, cobarde e incapaz de lutar pelos seus ideais. O luto de Sousa Falcão é um claro sinal de que há homens que não conseguem concretizar os seus objetivos, pois o medo sobrepõe-se aos seus sonhos e, embora conscientes deste comportamento (por isso surge o luto), mantêm-se atrás e não age frontalmente. Os tambores simbolizam a repressão sempre presente.



texto principal é constituído pelas falas das personagens;

texto secundário ou didascálico fornece ao leitor a listagem inicial das personagens, a distribuição das falas pelas diferentes personagens, a divisão do texto em atos e cenas, as indicações sobre a posição que cada personagem deve assumir em palco, os seus gestos, o tom de voz, a expressão do rosto, o cenário, o guarda-roupa, a iluminação, os adereços de cena, enfim, todas as informações e indicações pensadas pelo autor para a leitura/representação da peça. 
    Em Felizmente Há Luar! Sttau Monteiro fornece muitos elementos de texto secundário. Porquê? Bem, provavelmente Sttau Monteiro sabia que, apesar de situar a ação do seu texto no século XIX, não enganaria a censura, como não enganou, e a sua peça não seria representada. Deste modo, através de um texto de "margem esquerda", faz ouvir a sua voz, propondo uma determinada interpretação, ao encenar abundantemente a leitura do seu texto. Algumas indicações didascálicas, logo na listagem de personagens, fornecem uma " arrumação" de papéis, como podemos verificar no exemplo a seguir:


     As indicações são bastante minuciosas no que diz respeito:

·                     Às atitudes das personagens  
                  - " A pergunta é acompanhada dum gesto que revela a impotência da personagem perante o problema em causa. Este gesto é francamente "representado". " (p.15)

·                     À iluminação
               - " Ao abrir o pano a cena está às escuras, encontrando-se uma única personagem intensamente iluminada, ao centro e à frente do palco" (p.15)

·                     Ao cenário e adereços de cena
               - " De pé e sentadas, várias figuras populares conversam. Algumas dormem estendidas no chão. Uma velha, sentada num caixote, cata piolhos a uma rapariga." (p.16)

·                     Ao som
               - " Começa a ouvir-se, ao longe, o ruído dos tambores." (p.16)





                                          
Estrutura Externa
     Contrariamente ao texto de teatro clássico, Felizmente há luar! apresenta-se apenas dividido em dois atos, sem qualquer indicação de cenas. Os momentos cénicos são identificados pelas saídas e entradas de personagens e pelo jogo de sombra/luz e som. 

Estrutura Interna
Compõe-se de três momentos:

- a exposição, em que se apresentam as personagens e informações elementares sobre a acção e seus antecedentes, o tempo, o conflito e o espaço da ação, que tem os seus momentos de avanço e de retardamento;

- o climax, que corresponde ao ponto em que o conflito atinge a máxima intensidade dramática e em que se revelam as posições antagónicas;

- o desfecho, que é o desenlace da ação dramática. 

Personagens:


Matilde- " a companheira de todas as horas", corajosa, exprime romanticamente o amor; reage violentamente perante o ódio e as injustiças; afirma o valor da sinceridade; desmascara o interesse, a hipocrisia; ora desanima, ora se enfurece, ora se revolta, mas luta sempre.


Gomes Freire D'Andrade - personalidade carismática e de prestígio, admirada pelo povo, desperta ódios e inveja nos poderosos, opõe-se à presença inglesa em Portugal e à ausência do rei. Luta pela liberdade.  


Opressores:


D. Miguel Forjaz - prepotente, corrompido pelo poder, vingativo. 

Principal Sousa - fanático, corrompido pelo poder, eclesiástico.

Beresford - poderoso, mercenário, interesseiro, calculista, trocista, sarcástico general inglês, severo e disciplinador; Mandou matar Gomes Freire D'Andrade.


Os Delatores:


Vicente - demagogo, sarcástico, falso humanitarista, movido pelo interesse da recompensa material, adulador no momento oportuno, hipócrita, despreza a sua origem e o seu passado, capaz de recorrer à traição para ser promovido socialmente. 

Andrade Corvo - Capitão do exército, mau oficial, ignorante, pedreiro-livre (ex-maçon), traidor, desonesto, corrupto, denunciante, interesseiro, oportunista.

Morais Sarmento- Capitão do exército, ex-membro da maçonaria, traidor, preocupado com a opinião alheia, desonesto, corrupto, denunciante, interesseiro, ambicioso. 


Povo:


Manuel - " o mais consciente dos populares", andrajosamente vestido; assume algum protagonismo por dar início aos dois atos; denuncia a opressão a que o povo tem estado sujeito e a incapacidade de conseguir a libertação e sair da miséria em que se encontra.

Antigo Soldado – antigo militar, experiente, alegre, contador de histórias passadas.

Rita – mulher sensível, fraterna, solidária, apaixonada pelo marido.

Populares – pobres, miseráveis andrajosos.


Os amigos:


Sousa Falcão - " o inseparável amigo", sofre junto de Matilde perante a condenação do general, assume os mesmos ideias de justiça e de liberdade, mas não teve a coragem daquele.

Frei Diogo – honesto, fiel, solidário, caracter de elevada espiritualidade. 



Valores de Liberdade 

             Desde sempre o Homem recorreu à arte como meio de comunicação e, por vezes, de intervenção e defesa. Mas enquanto uns a consideravam uma necessidade de expressão e realização, outros censuravam-na. As canções de resistência consideradas após a revolução de Abril de 1974, bem como alguns poemas,  são o que, ao longo dos tempos, permitem a denúncia dos regimes opressores e da falta de liberdade.

            Como sabemos, a ação de Felizmente há luar! decorre em 1817, um tempo marcado pela conspiração e pelo desejo de liberdade tal como aconteceu em 1961, tempo de escrita da obra, em que Portugal se encontrava em plena ditadura do regime de Salazar. Sendo esta obra marcada pela opressão, censura, revolução e urgência na luta pela liberdade, decidi deixar aqui uma das canções de resistência que marcou o Abril de 1974 em Portugal.