terça-feira, 29 de maio de 2012

Modo dramático

A palavra teatro significa literalmente o lugar de onde se olha. O teatro é um espetáculo: como tal, requer a presença física de atores, representando para um público, dando vida a um texto através de palavras proferidas em cena. O texto de teatro é concebido para ser representado: ler uma obra de teatro impõe ter em conta como será representada. A peça de teatro não se reduz à linguagem verbal; comunica informações e produz efeitos através de todas as componentes do espetáculo. Ao texto dramático (que fixa o discurso das personagens) junta-se, no momento da representação, elementos visuais ( gestos, objetos, cenários, luzes...) e sonoros ( intonações, sons, música). O autor dramático escreve um texto com vista à representação, deixando sempre uma margem de liberdade ao encenador e aos atores que se apropriam do texto para o fazer reviver em cena. 


    Por isso, ler um texto de teatro não é o mesmo que vê-lo representado, sendo essencial para a sua leitura descodificar as informações contidas nas didascálias, que fazem parte integrante do texto dramático, e interpretar os sentidos múltiplos ou ambíguos atribuídos ás diferentes personagens, bem como as relações que estas mantêm entre si.



Características do Teatro Épico

Teatro Épico – Representação de um acontecimento ocorrido no passado histórico. Sttau Monteiro (Felizmente Há Luar!), Bernardo Santareno (O Judeu) e Cardoso Pires (O Render dos Heróis), foram influenciados pelo dramaturgo alemão Bertoli Brencht, “pai” deste tipo de teatro que se opõe ao drama aristotélico.

Teatro Épico (drama não aristotélico)
- Deseja provocar uma atitude socialmente empenhada, visando a transformação da sociedade.
- Rejeita a cartase.
- O espetador deve ser desligado da ação, criando-se o efeito de distanciação.
- Valoriza a narrativa – o espetador ouve a narração dos acontecimentos.
- O espetador deve refletir, ser crítico.
- O espetador é ativo, estimulando a sua capacidade de observação e de raciocínio.
- O espetador recordará para sempre a mensagem da obra. 
- O ator demonstra ação.

Encenação do Teatro Épico
- O encenador deve utilizar uma vasta variedade de efeitos para que os espetadores desenvolvam as suas capacidades de reflexão.

- A história estrutura-se por uma sucessão de situações; o décor, sonoridades e coreografia são independentes, tal vista a impedir a criação da ilusão da realidade; os gestos, os aspetos fisionómicos, os comportamentos, a entoação constituem o que Brecht denominava, no seu conjunto, por “gestus”, isto é, as atitudes marcantes do ser humano.

- No palco, todas as formas de criar ilusão devem ser banidas, como, por exemplo, o uso de cortinas. Assim, as cenas são exuberantemente iluminadas.


Bertoli Brecht

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Felizmente Há Luar!


Entrelaçamento de dois tempos



Sttau Monteiro
Sttau Monteiro, na sua obra, Felizmente Há Luar!, entrelaçou dois tempos, servindo-se um deles (sec. XIX) como máscara para encobrir a verdadeira época que pretendia retratar (sec. XX).

Recorrendo ao processo de distanciação histórica no tempo, o dramaturgo fez reviver o drama de Gomes  Freire – a sua denúncia, prisão, enforcamento e fogueira – num ambiente onde as forças do poder manipulavam. Tudo e todos, tinham ao seu serviço uma polícia desumana, injusta e oprimiam o povo, mantendo-o analfabeto e na miséria. Contudo, a sua verdadeira intenção para denunciar o Estado Novo e a polícia salazarista que erguia o estandarte do medo através da PIDE e dos seus agentes, que era manipulada pelos monopólios estrangeiros, e mantinham o povo numa situação de perfeita miséria e analfabetismo.

Sendo F.H.L! um teatro épico , este tem o objetivo de despertar no espetador a análise e a reflexão, mantendo a distância emotiva e conduzido à ação. Assim, pode dizer-se que o passado (sec. XIX) é, metaforicamente, uma janela aberta por onde os espetadores podem espreitar e ver o presente político da sua época, onde eles próprios estão aprisionados e sem liberdade, mas de onde têm de ser capazes de se libertar e conquistar os seus direitos.



TEMPO DA HISTÓRIA – sec. XIX - 1817
TEMPO DA ESCRITA – sec. XX - 1961
Agitação social que levou à revolta liberal de 1820 – conspirações internas; revolta contra a presença da corte no Brasil e a influência do exército britânico;
Agitação social dos anos 60 – conspirações internas; principal irrupção da guerra colonial;
Regime absolutista e tirânico;
Regime ditatorial de Salazar;
Classes sociais fortemente hierarquizadas; classes dominantes com medo de perder privilégios;
Maior desigualdade entre abastados e pobres; classes exploradoras, com reforço do seu poder;
Povo oprimido e resignado;
Obscurantismo, mas “felizmente há luar”;
Povo reprimido e explorado; Obscurantismo, mas crenças nas mudanças;
Manuel, “o mais consciente dos populares” denuncia a opressão;
Luta contra o regime totalitário e ditatorial; Agitação social e política com militantes antifascistas a protestarem;
Perseguições dos agentes de Beresford; as denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmento que hipócritas e sem escrúpulos, denunciam;
Perseguições da PIDE; Censura
Severa repressão dos conspiradores; processos sumários e pena de morte;
Prisão e duras medidas de repressão e de tortura; condenação em processos sem provas;
Execução do general Gomes Freire, em 1817.
Posterior a Felizmente Há Luar! – Execução do general Humberto Delgado, em 1965



Simbologia presente na obra
Em Felizmente Há Luar! há elementos com elevada carga simbólica, cuja descodificação ajuda a compreender a mensagem da obra.

Salienta-se, em primeiro lugar, o título, expressão preferida por duas personagens de “mundos” diferentes: D. Miguel, símbolo do Poder, considera que o luar permitirá que o clarão da fogueira seja visto por todos, atemorizando aqueles que ousem lutar pela liberdade, numa clara função repressora; para Matilde de Melo o luar tem uma função dissuasora, sublinhando a intensidade do fogo, incitando à ousadia daqueles que acreditam na mudança e na caminhada para a “luz da liberdade”.

A noite simboliza o poder das trevas, a escuridão, o obscurantismo e a ausência de liberdade, intimamente relacionado com o poder do absolutismo; o luar simboliza a renovação, a luz e a claridade que tem a função de quebrar a escuridão da noite. A saia verde representa a liberdade, o amor e a esperança de Matilde no renascer das ideias do General. É o sinal de que o seu luto se converteu em esperança. O luto de Sousa Falcão é o resultado da análise que a personagem faz a si próprio num gesto de auto-reflexão, onde se caracteriza como traidor, cobarde e incapaz de lutar pelos seus ideais. O luto de Sousa Falcão é um claro sinal de que há homens que não conseguem concretizar os seus objetivos, pois o medo sobrepõe-se aos seus sonhos e, embora conscientes deste comportamento (por isso surge o luto), mantêm-se atrás e não age frontalmente. Os tambores simbolizam a repressão sempre presente.



texto principal é constituído pelas falas das personagens;

texto secundário ou didascálico fornece ao leitor a listagem inicial das personagens, a distribuição das falas pelas diferentes personagens, a divisão do texto em atos e cenas, as indicações sobre a posição que cada personagem deve assumir em palco, os seus gestos, o tom de voz, a expressão do rosto, o cenário, o guarda-roupa, a iluminação, os adereços de cena, enfim, todas as informações e indicações pensadas pelo autor para a leitura/representação da peça. 
    Em Felizmente Há Luar! Sttau Monteiro fornece muitos elementos de texto secundário. Porquê? Bem, provavelmente Sttau Monteiro sabia que, apesar de situar a ação do seu texto no século XIX, não enganaria a censura, como não enganou, e a sua peça não seria representada. Deste modo, através de um texto de "margem esquerda", faz ouvir a sua voz, propondo uma determinada interpretação, ao encenar abundantemente a leitura do seu texto. Algumas indicações didascálicas, logo na listagem de personagens, fornecem uma " arrumação" de papéis, como podemos verificar no exemplo a seguir:


     As indicações são bastante minuciosas no que diz respeito:

·                     Às atitudes das personagens  
                  - " A pergunta é acompanhada dum gesto que revela a impotência da personagem perante o problema em causa. Este gesto é francamente "representado". " (p.15)

·                     À iluminação
               - " Ao abrir o pano a cena está às escuras, encontrando-se uma única personagem intensamente iluminada, ao centro e à frente do palco" (p.15)

·                     Ao cenário e adereços de cena
               - " De pé e sentadas, várias figuras populares conversam. Algumas dormem estendidas no chão. Uma velha, sentada num caixote, cata piolhos a uma rapariga." (p.16)

·                     Ao som
               - " Começa a ouvir-se, ao longe, o ruído dos tambores." (p.16)





                                          
Estrutura Externa
     Contrariamente ao texto de teatro clássico, Felizmente há luar! apresenta-se apenas dividido em dois atos, sem qualquer indicação de cenas. Os momentos cénicos são identificados pelas saídas e entradas de personagens e pelo jogo de sombra/luz e som. 

Estrutura Interna
Compõe-se de três momentos:

- a exposição, em que se apresentam as personagens e informações elementares sobre a acção e seus antecedentes, o tempo, o conflito e o espaço da ação, que tem os seus momentos de avanço e de retardamento;

- o climax, que corresponde ao ponto em que o conflito atinge a máxima intensidade dramática e em que se revelam as posições antagónicas;

- o desfecho, que é o desenlace da ação dramática. 

Personagens:


Matilde- " a companheira de todas as horas", corajosa, exprime romanticamente o amor; reage violentamente perante o ódio e as injustiças; afirma o valor da sinceridade; desmascara o interesse, a hipocrisia; ora desanima, ora se enfurece, ora se revolta, mas luta sempre.


Gomes Freire D'Andrade - personalidade carismática e de prestígio, admirada pelo povo, desperta ódios e inveja nos poderosos, opõe-se à presença inglesa em Portugal e à ausência do rei. Luta pela liberdade.  


Opressores:


D. Miguel Forjaz - prepotente, corrompido pelo poder, vingativo. 

Principal Sousa - fanático, corrompido pelo poder, eclesiástico.

Beresford - poderoso, mercenário, interesseiro, calculista, trocista, sarcástico general inglês, severo e disciplinador; Mandou matar Gomes Freire D'Andrade.


Os Delatores:


Vicente - demagogo, sarcástico, falso humanitarista, movido pelo interesse da recompensa material, adulador no momento oportuno, hipócrita, despreza a sua origem e o seu passado, capaz de recorrer à traição para ser promovido socialmente. 

Andrade Corvo - Capitão do exército, mau oficial, ignorante, pedreiro-livre (ex-maçon), traidor, desonesto, corrupto, denunciante, interesseiro, oportunista.

Morais Sarmento- Capitão do exército, ex-membro da maçonaria, traidor, preocupado com a opinião alheia, desonesto, corrupto, denunciante, interesseiro, ambicioso. 


Povo:


Manuel - " o mais consciente dos populares", andrajosamente vestido; assume algum protagonismo por dar início aos dois atos; denuncia a opressão a que o povo tem estado sujeito e a incapacidade de conseguir a libertação e sair da miséria em que se encontra.

Antigo Soldado – antigo militar, experiente, alegre, contador de histórias passadas.

Rita – mulher sensível, fraterna, solidária, apaixonada pelo marido.

Populares – pobres, miseráveis andrajosos.


Os amigos:


Sousa Falcão - " o inseparável amigo", sofre junto de Matilde perante a condenação do general, assume os mesmos ideias de justiça e de liberdade, mas não teve a coragem daquele.

Frei Diogo – honesto, fiel, solidário, caracter de elevada espiritualidade. 



Valores de Liberdade 

             Desde sempre o Homem recorreu à arte como meio de comunicação e, por vezes, de intervenção e defesa. Mas enquanto uns a consideravam uma necessidade de expressão e realização, outros censuravam-na. As canções de resistência consideradas após a revolução de Abril de 1974, bem como alguns poemas,  são o que, ao longo dos tempos, permitem a denúncia dos regimes opressores e da falta de liberdade.

            Como sabemos, a ação de Felizmente há luar! decorre em 1817, um tempo marcado pela conspiração e pelo desejo de liberdade tal como aconteceu em 1961, tempo de escrita da obra, em que Portugal se encontrava em plena ditadura do regime de Salazar. Sendo esta obra marcada pela opressão, censura, revolução e urgência na luta pela liberdade, decidi deixar aqui uma das canções de resistência que marcou o Abril de 1974 em Portugal.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

Mitificação do herói em Os Lusíadas e Mensagem


Fernando Pessoa (Mensagem) Luís Vaz de Camões (Os Lusíadas)
 Separados por 4 séculos Os Lusíadas e Mensagem apresentam diferenças nítidas no que concerne à problemática da mitificação do herói.
Assim, na obra Os Lusíadas, o herói da epopeia caracteriza-se pelos feitos grandiosos, nunca antes realizados por humanos, pela ascensão dos homens à condição de Imortalidade devido a esses feitos, pela a ascensão dos homens à condição divina, como é visível na Ilha dos Amores e pela superação dos heróis das epopeias antigas. Na verdade, o heroi da epopeia vai-se progressivamente construindo à medida que a viagem avança, não só porque vai vencendo, graças à sua coragem e ousadia, todos os obstáculos e perigos (Adamastor), mas também porque suplanta as forças da Natureza, vence os deuses e ainda porque vai detendo um novo saber, adquirido através das suas vivencias e experiencias e que, por esse motivo, engrandece o espírito humano (Fogo de Santelmo Tromba Marítima). Contudo, é na Ilha dos Amores que se assiste à realização daquilo que constituí a essência da epopeia: o poeta torna imortais os feitos dos portugueses, elevando-os à categoria de deuses, para sempre eternos na memória dos homens. Pode então dizer-se que Os Lusíadas apresentam um homem que “é a medida de todas as coisas”, numa visão antropocentrista do mundo em detrimento da visão Teocêntrica em que a razão se sobrepõe ao dogma. É a apologia do saber, da experiência e da crença nas capacidades do Homem, em perfeita consonância com o espírito renascentista, onde o herói se eleva à medida do seu esforço.
Em Mensagem, as figuras históricas da epopeia camoniana surgem como personagens míticas que funcionam como modelos. O herói da Mensagem projeta-se para além do momento histórico em que a ação teve lugar, sendo a sua dimensão simbólica e mítica que importa, enquanto marco na história da Humanidade. Este herói é predestinado, escolhido, sacralizado e situa-se no domínio do Sonho, procurando contudo a superação dos limites que caracterizam a própria condição humana. (“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”)
Em síntese, pode dizer-se que o herói de Mensagem surge da necessidade de combater a estagnação que caracteriza o Portugal do século XXI, um Portugal sem glória que tem de renascer e regenerar-se. Essa constatação leva o poeta a fazer um apelo aos seus compatriotas, no sentido de iniciarem a sua ação na construção de um novo tempo, a era do quinto Império com o seu Messias Salvador.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Mensagem

O livro Mensagem é uma obra épico-lírico, constituída por 44 composições que se agrupam em três partes distintas. Tem, pois, uma estrutura tripartida, estrutura essa que assenta em razões de ordem racional e espiritual. É uma coletânea que reúne poemas de caracter nacionalista e sebastianista, a única publicada em vida do seu autor, Fernando Pessoa, em 1934.

Fernando Pessoa revestiu a sua obra de uma carga simbólica e mítica que é anunciada desde logo, quando no livro e por baixo do título Mensagem, aparece a inscrição latina “Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum” (Bendito seja Deus Nosso Senhor, que nos deu o sinal), acompanhando ,igualmente, cada um das três partes que compõem a obra, novamente, de uma inscrição latina. Brasão é seguido de “Bellum sine bello.” (Guerra sem guerra.); Mar Português- “Possessio mari.”(Domínio do mar) e O Encoberto- “Pax in excelsis” (Paz nas alturas), terminando a obra com a epígrafe “Valete, Fratres” (Saúde, Irmãos), expressão utilizada na despedida entre membros de sociedades secretas e que, simbolicamente, traduz o otimismo pessoano no futuro.

Então, vamos ter em Brasão (19 poemas) os heróis fundadores da nacionalidade, portuguese que, por inspiração divina, realizaram os seus atos gloriosos. E foi esta predeterminação divina que conduziu a nação portuguesa e o seu povo à glória e ao seu reconhecimento.

Em Mar Português (12 poemas), o poeta evoca a expansão marítima, isto é, a conquista e o domínio dos mares pelos navegadores que, com sofrimento e sacrifício, deram uma maior dimensão à Pátria.

Em O Encoberto (13 poemas), sente-se a decadência e morte da nação, outrora esplendorosa. Mas antevê-se uma ressurreição na criação de um novo império.

Mensagem é, simultaneamente, uma obra que retrata a decadência de Portugal, visível na crise de valores e de identidade que Pessoa enumera no poema Nevoeiro, mas é também um texto de esperança que expressa a fé num novo ciclo, o desejo de recuperar energias, canalizando-as para o recomeço. O livro termina com uma apelo à mudança. “ É a Hora!” é o verso final do último poema da obra, funcionando, deste modo, como um grito de exortação, de incentivo aos portugueses, mostrando que é chegado o momento certo para fazer ressurgir a grandeza de Portugal.

Mensagem estrutura-se em torno de três conceitos fundamentais:

Herói – aquele que interpreta a vontade divina, atuando para dar cumprimento a uma vontade que lhe é superior, transformando-se em mito. É o predestinado, o escolhido, aquele a quem Deus dá gládio urgida para cumprir uma missão, (“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”).

Sebastianismo - Assim se compreende o desejo do regresso mítico do rei que corporiza um passado glorioso, a redenção nacional:” Onde quer que, entre sombras e dizeres;/ jazas remoto, Sente-te sonhado, / E ergue-te do fundo de não seres/ Para o teu novo Fado!”
Quinto Império - profetizado na Mensagem está imbuído de um espírito de fraternidade, representa uma espécie de paraíso perdido que permitiria o renascer do homem no futuro. Este conceito liga-se ao Sebastianismo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O herói em Os Lusíadas


Camões dá-nos conta de dois tipos de herói: o nato, a quem nada é exigido para ascender ao estatuto da imortalidade, pois assim nasce, herdando os títulos que o libertarão da lei da morte; o adquirido, mais concretamente aquele que tem de vencer os perigos e os contratempos para se elevar ao plano do semideus. Este é para o poeta o verdadeiro herói, o ser excelente e excecional que alcança a sublimação. É o povo português que, na Ilha dos Amores, é conduzido pela mão dos deuses e levado por caminhos jamais pisados por humanos, símbolo da glória e da eternidade. O Homem, “bicho da terra” tão pequeno, conseguiu assim vencer o mar que o transcendia, graças à sua ousadia e capacidade de sacrifício, superando-se e indo “ mais alto e mais longe”

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Reflexões do Poeta

Em Os Lusíadas, o plano das reflexões do poeta é extramente importante, uma vez que é nele que estão expressos os conselhos e as críticas do sujeito poético dirigidas aos Portugueses. Nessas reflexões, há louvores e queixas, pois por um lado, realça o valor das honras e da glória alcançadas por mérito próprio e, por outro, lamenta que muitos se arrastem pelo poder corrupto do dinheiro, pela cobiça, ambição e tirania, honras vão que não dão verdadeiro valor ao homem; faz a apologia das letras e da cultura; exorta D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português; confessa estar cansado de não se sentir reconhecido artisticamente e tece considerações sobre a fragilidade da condição humana, alertando para os perigos que a todo o momento espreitam e que o homem tem de enfrentar.




Canto I

O poeta reflete sobre a condição humana e a fragilidade da vida rodeada de tantos perigos quer no mar quer em terra, interrogando-se sobre a possibilidade do homem (“bicho da terra tao pequeno”) encontrar um porto de abrigo seguro sem que a ira divina atente sobre si.

Canto V

O poeta destaca a importância das letras e lamenta que os Portugueses nem sempre saibam aliar a força e a coragem à eloquência.

Ao comparar os nossos heróis com os da Antiguidade, lamenta que os fortes capitães e os grandes guerreiros, assim como os marinheiros portugueses apenas o sejam pela força, pois são rudes e incultos, enquanto os heróis das antigas epopeias eram “doutos e cientes”. (“Nua mão a pena e noutra a lança”)

O poeta sente vergonha pelo facto de a nação portuguesa não ter capitães letrados, pois quem não sabe o que é a arte, também não a pode apreciar.

Se a nação portuguesa continuar no costume da ignorância, não teremos nem homens ilustres nem corajosos.

Canto VI

O poeta realça o valor das honras e da glória alcançadas por mérito próprio.

O poeta valoriza o herói que conquista esse estatuto pelo seu esforço e luta para alcançar as famas e a honra.

O homem pode triunfar da “Fortuna”, desprezando as soluções e assim torna-se capaz de com “o seu forçoso braço”, buscar as honras que chame suas, vencendo as adversidades, impondo a sua vontade, autodominando-se e tornando-se o sujeito da própria vida.

Canto VII

Esta reflexão do poeta pretende se uma intervenção pedagógica. O poeta canta, louva os Portugueses, mas também os censura. Acusa-os de ignorância e de desprezo pela cultura, alerta-os para os perigos de decadência resultantes do menosprezo da cultura. Preocupado com os índices de ignorância, denuncia os abusos dos poderosos e as injustiças que atingem o povo. O poeta, errante, incompreendido, de vida desgraçada e azarenta, já não lamenta a injustiça sofrida, mas a indiferença e a insensibilidade daqueles que o desprezam e não dao valor ao dom que lhe é feito.

O poeta critica a oposição entre a política  e a cultura e denuncia o divorcio existente entre “senhores” e “escritores”, profetizando a decadência da pátria.

O poeta faz a apologia do povo português e da sua expansão territorial para divulgar a fé Cristã.

Critica os povos que não seguem o exemplo do povo português que, com atrevimento, chegou a todos os cantos do mundo e “se mais mundos houvera, lá chegara”.

Apesar de os portugueses ocuparem um pequeno território, são grande em coragem e em ousadia, para lutar pela fé cristã, contrariamente aos restantes povos europeus.

Canto VIII

O poeta critica o poder do dinheiro, o materialismo e a cobiça em que o povo está mergulhado e alerta que, deste modo, as honras alcançadas não são verdadeiras. O dinheiro é fonte de corrupções e de traições, desonestidades, crueldades…

Canto IX

O poeta dirige-se a todos os que pretendem atingir a imortalidade, dizendo-lhes que a cobiça, a ambição e a tirania são honras vãs que não dão verdadeiro valor ao homem.

Lembra que, na Antiguidade, os prémios concedidos eram atribuídos a quem fazia o difícil caminho da virtude.

Exortar os portugueses, para que despertem do “ócio” e persigam o seu objetivo com dignidade (A Fama).

Canto X

O poeta confessa estra cansado de “cantar gente surda e endurecida”, que não reconhece nem incentiva as suas qualidades artísticas e não conseguem nem têm a capacidade para apreciar o canto épico.

A pátria vive mergulhada numa tristeza austera, apagada e vil.

Finalmente manifesta o seu patriotismo e exorta o Rei D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português.